1º recado

13 novembro 2013

Cecília,

sou excelente em autoajuda

para os outros.

5ª Carta

23 setembro 2012

Cecília,

Tem coisas que funcionam melhor quando não tentamos consertar.

Um beijo.

4ª Carta

24 julho 2012

Oi Cecília,

A obra aqui em casa nos deu muita dor de cabeça. Além daquelas corriqueiras como os gastos que estouram o orçamento, a bagunça sem fim e o tempo que se estende para além do programado, ainda tivemos problemas com o primeiro pedreiro que fez coisas erradas que não tem conserto e com o segundo pedreiro que fez coisas erradas e que teremos que consertar.

Esses problemas, apesar de tudo, superamos – ou racionalizamos e por isso tem doído menos. Mas ainda resta outro problema, que não é fruto da obra, mas que foi reavivado com ela: a vizinhança. Desde a nossa vinda pra cá não nos damos com a vizinha de baixo. São vários os causos de embates e o resultado foi sempre o enclausuramento meu e da Prill dentro da nossa casa. Apenas uma vez os enfrentamos e fomos derrotados pelas circunstâncias, o que agravou  nosso isolamento. Agora com a obra, fomos obrigados a estabelecer algum contato com eles e, na medida do possível, as coisas se resolveram. A verdade é que se resolveram porque sempre cedemos aos abusos deles, já que preferimos o abuso ao enfrentamento. Mas decidimos não aceitar mais essa condição e isso tem me afligido.

Mesmo sabendo estar com a razão, tenho dificuldades em defender minha posição, de me posicionar e não ceder quando estou certo. Minha razão nubla no enfrentamento, meu corpo treme, o coração quer sair pela boca, a respiração fica curta e uma frase fica ecoando na minha cabeça: “acaba logo com isso!”. Disso resulta a desistência, pois assim me livro da ansiedade e da angústia que o embate me causa.

Agora estou envolto nesses sentimentos. Escutei a vizinha de baixo reclamando com a vizinha do lado sobre partes da obra que ficaram inacabadas na casa dela. Veja bem, Cecília, é na casa dela mas querem que nós tomemos as providências! A angústia quer me levar a ligar para o pedreiro vir e finalizar as coisas às minha custas! Mas seguir a angústia é agir irracionalmente e mais uma vez aceitar ser abusado pela vizinha. Tenho certeza que perceberam nossa dificuldade de nos impor e por isso nos violentam desse modo.

Mas não quero ceder, Cecília. Quero tomar posse da minha decisão, ficar em pé e de cabeça erguida na presença da vizinhança. Quero tomar posse da segurança e não mais ser vencido pela insegurança. Moro a dois anos aqui e ainda não tomei posse do meu espaço, da minha casa.

Passou da hora de conquistar o meu mundo. O mundo é meu.

3ª Carta

19 julho 2012

Hoje falamos, Cecília, sobre essa minha falta de equilíbrio, de estar sempre no extremo, de ser tudo ou nada. Talvez o ponto de desequilíbrio seja esse: a ansiedade de querer se firmar como alguém ou desistir e ser ninguém.

Nem no céu, nem no inferno. Aprender a viver na terra.

7 elementos que compõe a técnica filosófica:

1) Anamnese

2) Meditação

3) Exame dialético

4) Pesquisa histórico-filológico

5) Arte hermenêutica

6) Exame de consciência

7) Técnica expressiva.

De lambuja, um crítica a formação filosófica uspiana.

 

16 julho 2012

Não da pra acreditar que estudei com tanta gente imbecil.

Não sou fora de série, mas aprendi o básico: ficar quieto.

Cagar

16 julho 2012

Cagar:

Sensação agradável que se tem quando o que oprime ou molesta cessa de todo ou em grande parte.

2ª Carta

24 junho 2012

Cecília,

Estou escrevendo a dissertação. Em duas horas saiu uma página. Não é ótima notícia? É bobagem contar o desenvolvimento de um trabalho pelo número de páginas escritas e não pela quantidade de problemas abordados. Mas estou num momento que quero é ter um número razoável de palavras para entregar e mostrar que, apesar de tudo, consegui fazer alguma coisa. Os problemas que sobrarem deixo pra depois.

Sinto um prazer enorme em escrever a dissertação. É uma passagem estranha essa da angústia que impede o trabalho para o tesão de querer ir além. A primeira é uma força que paralisa; a segunda é uma que força motiva. Dois prazeres opostos.

Culpo a angústia de ser paralisante sem levar em conta o que Sartre diz: ela não nos impede de agir; antes, é a condição da ação, fazendo parte dela. A angústia surge no momento em que percebemos a responsabilidade da nossa escolha. Mas dar-se conta dessa responsabilidade não é paralisante?

Estamos condenados a ser livres, e de presente somos responsáveis por nosso destino e pelo destino dos outros, pois nossas escolhas também os afetam. Não determinamos a vida de ninguém, mas nossas determinações afetam os demais que, consequentemente, terão de escolher a partir das afetações causada pelas nossas escolhas e também se perceber responsáveis pelas afetações causadas pelas suas escolhas. Parece bobagem, Cecília?

Mas a angústia me paralisa e é isso. E quando consigo vencer essa opressão, sou invadido pelo tesão, por essa intensidade, esse entusiasmo, por esse desejo que nubla qualquer outra emoção. Se antes meu impulso era da introversão, da negação do mundo. Agora é gozo, o desejo da entrega completa ao esgotamento prazeroso.

Sinto o prazer, Cecília, de ter os olhos cansados, as costas doída e o café correndo nas veias. Ali, cada palavra saída de mim, que agora não pesa o coração e não cansa mais a alma.

Tesão de assumir a responsabilidade.

1ª Carta

24 junho 2012

Cecília,

Depois de meses peguei a dissertação para trabalhar. Li algumas páginas de um artigo excelente que dá um panorama geral de uma parte da discussão sobre a qual verso. E ali vi que estou no caminho certo, nas intuições, nas abordagem do problema. Até muito da bibliografia utilizada pelo autor já tenho comigo há muitos anos, sem ter lido os livros e muitos menos sem saber que utilizaria numa dissertação.

Mas por enquanto fiquei nessa leitura. Cheguei em casa ansioso para escrever e, no entanto, não foi o que aconteceu. Fui invadido novamente por aquela angústia paralisante, da qual só consigo escapar derretendo o cérebro vagando sem rumo na internet e me entregando à televisão mesmo sem interesse. Tudo é uma tentativa de ocupar os olhos e os ouvidos para calar a alma.

Sei que tenho condições técnicas para fazer a dissertação, e ainda que o tempo esteja escasso, fazer uma boa dissertação. Porém, saber disso não é suficiente. Saber-se capaz de alguma coisa não transforma-se necessariamente na sua prática. E se não transforma-se em prática, seria esse saber apenas quimera?

Pode ser que saber-se como algo nos impeça de efetivamente sê-lo. Não sei se você concordaria, mas as coisas ficam tão lindas dentro da nossa cabeça que praticá-las é correr o risco de enfeiá-las. Somos tão bonitos em nossa cabeça, porque arriscar nos perder na prática?

A vontade que tenho é de arrancar o coração, porque pesa demais, porque rouba todos os pensamentos para sua dor, porque meu problema é a angústia na qual ele se afoga. Dá pra arrancar o coração, Cecília, pra seguir a diante, pra escrever a dissertação que preciso? Dá pra deixar o coração ali, enquanto resolvo isso, e depois tratá-lo daquilo que o adoece?

Preciso de outro lugar para meu coração, porque no meu peito ele só traz peso pra alma.

14 setembro 2011

Volto aqui porque no fim sempre volto à mim. Até hoje não encontrei outro lugar pra deixar meus fracassos, desencantos e coisas boas senão em mim. Não porque não tenha procurado, nem mesmo por não desejar. É bem o contrário: desde que me sei gente quero um outro, além de eu. Lembro que um dos meus primeiros textos foi sobre o senhor Myagui, do Karatê Kid. Porque meu desejo de um outro é a procura de um sábio que não seja eu. Talvez por saber que  nada sei e por saber que preciso de alguém. Ou de muitos. Mas nunca consegui e não por culpa deles. Talvez um pouco de culpa deles, mas muito mais minha. Talvez também. Não dá pra saber, só dá pra constatar que sou só e assim permaneço mesmo quando tenho outros.

Sempre me achei soberbo, orgulhoso, arrogante. Mas achava errado, pois egocêntrico me caí melhor. E por conta disso não sei me comunicar, comunicar a mim. Posso falar de várias poucas coisas, mas de mim não. Minhas brigas com a Priscilla tem sido basicamente por conta disso: não me comunico e as coisas vão ficando erradas, complicadas e na hora de falar digo tudo e nada faz sentido, já que transbordo e só fica o desespero para contenção do estrago. Aí penso novamente como me falta um outro, desses que a gente fala de si e ele manda você pra puta que te pariu, porque é essa a resposta prum ego exacerbado.

Alguém me tire no fundo do umbigo.

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